Nos tempos das andorinhas, Campo Grande adorava cinema. O CINE TEATRO SANTA HELENA, inaugurado em 1929 com 1.300 lugares na Rua Dom Aquino - à época considerada como zona de jogatina, prostíbulos e bebedeira, teve como seu primeiro dono o egípcio ALEXANDRE KALYL SAAD. Depois de sua inauguração o povo começou a frequentar a Dom Aquino, antes considerada não familiar. Os moradores mais antigos contavam que logo no início de suas atividades, sempre às sextas feiras, o SANTA HELENA exibia filmes japoneses. O cidadão de Campo Grande não era muito chegado nesse tipo de filme, mas a grande colônia nipônica, que vivia na Cidade Morena, costumava lotar a sala de exibição e o movimento ao redor do cinema era grande. As pessoas chegavam de charrete, carroça ou a pé. O filme, o início da sessão, era sempre precedido por uma música clássica executada em antigos discos de vinil (78 rpm). Enquanto ele não começava, a moçada ficava circulando pelos corredores do cinema buscando um parceiro. As moças sentavam-se primeiro. Os rapazes ficavam na esperança de ser presenteado com o apaixonado olhar de alguma incauta. Uma “secada” mais demorada era o sinal de que o cara podia sentar ao lado da moça, talvez pegar em sua mão ou, além dos limites da época, até roubar um beijo. FELIX DAMUS, em 1937, comprou o cinema e fez nele uma grande reforma. Instalou equipamentos modernos importados da Europa, possibilitando a exibição de filmes com som e imagem simultâneos. Depois de anos fazendo sucesso, o Santa Helena, em sua fase de decadência, começou a receber o “povão” propriamente dito - soldados do Exército e da Aeronáutica, principalmente - passando a ser considerado um cinema “popular”, sempre sob a vigilância de PE, PA e, principalmente do lendário “Seu Horácio” – lendário delegado da Polícia Civil do Bairro Amambaí. Lembro-me que depois de semanas do Brasil se sagrar campeão mundial de futebol no Chile, os jogos da Copa do Mundo de 1962 foram exibidos em sua tela com ingressos esgotados e gente vibrando como se estivesse no estádio. Antes, também em 1937, logo após o surgimento do Santa Helena, KARIM BACHA inaugurou o CINE TEATRO ALHAMBRA, na Avenida Afonso Pena. Cinema que deu por várias décadas, um grande impulso à vida cultural campo-grandense, sendo por isso o cinema mais frequentado pela população local. ALHAMBRA e SANTA HELENA - juntos com outro cinema que deixou muitas saudades, o CINE RIALTO - mudaram o comportamento social da cidade. Para frequentá-los, as mulheres foram praticamente obrigadas (por exigências das salas) a usarem vestidos “à altura”, roupas finas fugindo do trivial, e os homens só podiam entrar de paletó e gravata. Um tempo bom que não volta mais...

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