13/02/2026

O LOBISOMEM DE CORUMBÁ...


Nos idos do século XX, o Corumbaense foi um dos grandes do futebol de Mato Grosso do Sul. Naqueles dias, eu, árbitro de futebol da FFMS, atravessava boa fase técnica e por isso era escalado para arbitrar alguns “clássicos” do MS. Foi assim que certa sexta feira, 13, me vi circulando pelas ruas da Cidade Branca. O calor pantaneiro de Corumbá é sua marca registrada. Cravada às margens do Rio Paraguai, ela tem um quê de cidade praiana. Lembra muito o Rio. O corumbaense, com certeza, traz um gene carioca em suas veias. Eu estava pasmo ao ver a massa de torcedores e de carros desfilando pelas ruas com bandeiras do Corumbaense, desafiando a torcida visitante. Nos bares lotados, o peixe frito e a cerveja estupidamente gelada, davam o tom das conversas. Nesta sexta, feriado local, eu arbitraria Corumbaense X Operário...

De manhã, hospedado em um hotel do centro, fui conhecer Forte Coimbra, atração turística da região. Lá, almocei. Um oficial do Exército da fortaleza me presenteou com uma medalha de Nossa Senhora do Carmo, padroeira daquele reduto. Convenceu-me que me protegeria. Bastaria invocá-la nos momentos de dificuldades...

O jogo? Terminou empatado. Logo após, voltei para o hotel. Como só retornaria à Campo Grande na manhã seguinte no avião de Zamlutti, presidente da FFMS, fui conhecer a a noite corumbaense. Ciceroneado por Apolônio, árbitro local, circulamos por bares e boates até às tantas. Bebemos e comemos tudo o que a Cidade Banca oferecia para seus visitantes. Jogamos conversa fora até perto da meia-noite quando Apolônio se despediu. Sozinho, tentei voltar para o hotel. Estava no porto, precisava caminhar até a cidade alta. Capengando, cheguei até a escadaria da XV. Teria que escalar, um a um, os 126 degraus daquele lugar escuro e perigoso...

Uma caranguejeira do tamanho de meu punho fechado correu pelo paredão de pedra. Mau presságio? Achei no chão, meio tijolo. Cravei a aranha na muralha enquanto o sino da matriz anunciava a meia-noite. Cães começaram a ladrar no alto daquela rampa. Eu sabia que não era para nenhum ser humano quando os vi descendo a ladeira perseguindo um vulto que vinha direto na minha direção. Assustado, agarrei-me à grade de ferro de uma velha casa. Pulei para seu jardim. Num canto do muro de pedras, escondi-me nas sombras. Apertava fervorosamente a medalha de Nossa Senhora do Carmo, protetora do Forte Coimbra. Se a santa fosse mesmo milagrosa, me livraria daquela coisa que descia a escadaria. Protegido pelas grades testemunhei o sobrenatural...

Uma criatura horrível, metade homem, metade cachorro, uivando como lobo, apoiada nas patas traseiras, despencava ladeira abaixo. Fugia dos cães. Trazia preso em suas mandíbulas um cão estraçalhado. Enquanto a besta se aproximava, um cheiro nauseabundo de titica de galinha invadiu o lugar. Encolhido como um feto, eu já esgotara o meu repertório de orações. Os cães ganiam desesperadamente. Uivavam em delírio. Aquele que chegava perto do lobisomem era arremessado para longe por dilacerantes patadas. Eu e a criatura, por um instante, ficamos cara a cara.,,

Olhos vermelhos, de fogo. Negro e peludo como um urso. Grande como uma onça pintada. Garras de tamanduá. Sua imagem, recortada contra a lua cheia grudou-se em minha memória. Quando me encarou, um calafrio percorreu minha espinha. Em pânico apontei a imagem da santa na direção da besta. Cerrei meus olhos. Esperei a morte. Senti o lobisomem cada vez mais perto. Seu fétido hálito corroeu as minhas narinas. Berrei: “Valei-me Nossa Senhora do Carmo!”...

 Por segundos um silêncio profundo invadiu a escadaria. Abri meus olhos devagar a tempo de ver o homem-lobo fugindo dos cães. Subiu em um muro, escalou uma árvore, sumiu sobre o telhado da Casa Vasquez...

Por tudo isso, virei devoto da milagrosa santa do Carmo. Hoje, quando vou a Corumbá, faço questão de visitar sua capela...  

Quem acreditaria nesta estória? Preferi que, por anos, ficasse no anonimato...

Meninos... eu vi !!!

**** jairbuchara@hotmail.com **** 

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