Nos idos do século XX, o Corumbaense foi um dos grandes do futebol de
Mato Grosso do Sul. Naqueles dias, eu, árbitro de futebol da FFMS, atravessava boa
fase técnica e por isso era escalado para arbitrar alguns “clássicos” do MS. Foi
assim que certa sexta feira, 13, me vi circulando pelas ruas da Cidade Branca. O
calor pantaneiro de Corumbá é sua marca registrada. Cravada às margens do Rio
Paraguai, ela tem um quê de cidade praiana. Lembra muito o Rio. O corumbaense, com
certeza, traz um gene carioca em suas veias. Eu estava pasmo ao ver a massa de
torcedores e de carros desfilando pelas ruas com bandeiras do Corumbaense,
desafiando a torcida visitante. Nos bares lotados, o peixe frito e a cerveja
estupidamente gelada, davam o tom das conversas. Nesta sexta, feriado local, eu
arbitraria Corumbaense X Operário...
De manhã, hospedado em um hotel do centro, fui conhecer Forte Coimbra,
atração turística da região. Lá, almocei. Um oficial do Exército da fortaleza
me presenteou com uma medalha de Nossa Senhora do Carmo, padroeira daquele reduto.
Convenceu-me que me protegeria. Bastaria invocá-la nos momentos de
dificuldades...
O jogo? Terminou empatado. Logo após, voltei para o hotel. Como só retornaria
à Campo Grande na manhã seguinte no avião de Zamlutti, presidente da FFMS, fui conhecer
a a noite corumbaense. Ciceroneado por Apolônio, árbitro local, circulamos por
bares e boates até às tantas. Bebemos e comemos tudo o que a Cidade Banca oferecia
para seus visitantes. Jogamos conversa fora até perto da meia-noite quando Apolônio
se despediu. Sozinho, tentei voltar para o hotel. Estava no porto, precisava
caminhar até a cidade alta. Capengando, cheguei até a escadaria da XV. Teria
que escalar, um a um, os 126 degraus daquele lugar escuro e perigoso...
Uma caranguejeira do tamanho de meu punho fechado correu pelo paredão de
pedra. Mau presságio? Achei no chão, meio tijolo. Cravei a aranha na muralha
enquanto o sino da matriz anunciava a meia-noite. Cães começaram a ladrar no
alto daquela rampa. Eu sabia que não era para nenhum ser humano quando os vi descendo
a ladeira perseguindo um vulto que vinha direto na minha direção. Assustado, agarrei-me
à grade de ferro de uma velha casa. Pulei para seu jardim. Num canto do muro de
pedras, escondi-me nas sombras. Apertava fervorosamente a medalha de Nossa
Senhora do Carmo, protetora do Forte Coimbra. Se a santa fosse mesmo milagrosa,
me livraria daquela coisa que descia a escadaria. Protegido pelas grades testemunhei
o sobrenatural...
Uma criatura horrível, metade homem, metade cachorro, uivando como lobo, apoiada
nas patas traseiras, despencava ladeira abaixo. Fugia dos cães. Trazia preso em
suas mandíbulas um cão estraçalhado. Enquanto a besta se aproximava, um cheiro
nauseabundo de titica de galinha invadiu o lugar. Encolhido como um feto, eu já
esgotara o meu repertório de orações. Os cães ganiam desesperadamente. Uivavam
em delírio. Aquele que chegava perto do lobisomem era arremessado para longe
por dilacerantes patadas. Eu e a criatura, por um instante, ficamos cara a cara.,,
Olhos vermelhos, de fogo. Negro e peludo como um urso. Grande como uma onça
pintada. Garras de tamanduá. Sua imagem, recortada contra a lua cheia grudou-se
em minha memória. Quando me encarou, um calafrio percorreu minha espinha. Em
pânico apontei a imagem da santa na direção da besta. Cerrei meus olhos. Esperei
a morte. Senti o lobisomem cada vez mais perto. Seu fétido hálito corroeu as
minhas narinas. Berrei: “Valei-me Nossa Senhora do Carmo!”...
Por segundos um silêncio profundo
invadiu a escadaria. Abri meus olhos devagar a tempo de ver o homem-lobo fugindo
dos cães. Subiu em um muro, escalou uma árvore, sumiu sobre o telhado da Casa
Vasquez...
Por tudo isso, virei devoto da milagrosa santa do Carmo. Hoje, quando vou
a Corumbá, faço questão de visitar sua capela...
Quem acreditaria nesta estória? Preferi que, por anos, ficasse no
anonimato...
Meninos... eu vi !!!
**** jairbuchara@hotmail.com ****

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